João, o Baptista, é uma figura muito importante na transição do que era conhecido sobre Deus no antigo testamento e o que passou a se conhecer no novo testamento. Ele era o último da linhagem dos profetas enviados por Deus para instruir o povo, mas no caso específico, ele veio também para antecipar a revelação do Cristo. Por meio de João, as duas fases da história de Israel se conectaram e ele tinha consciência sobre tudo isso. É aí onde precisamos entender quão perigoso foi para João ter os encontros que ele teve com o povo e com os discípulos dos escribas e fariseus.
Ora vejamos como ele era abordado:
19. E este é o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para o interrogarem: “Quem és tu?”
20. Ele confessou e não negou; mas declarou francamente: “Eu não sou o Cristo.”
21. E o questionaram: “Quem és, então? És tu Elias?” Ele disse: “Não o sou.” “És tu o Profeta?” E João afirmou: “Não.”
22. Então, perguntaram a ele: “Quem és tu? Dá-nos uma resposta, para que a levemos àqueles que nos enviaram; que dizes a respeito de ti mesmo?”
23. E João lhes disse: “Eu sou a voz do que clama no deserto: ‘Fazei um caminho reto para o Senhor’, como disse o profeta Isaías”.
25. E perguntaram-lhe ainda: “Então, por que batizas, se não és o Cristo, nem Elias, nem o Profeta?”
26. João respondeu-lhes, dizendo: “Eu batizo com água; mas, no meio de vós, já está quem vós não conheceis.
27. Ele é aquele que vem depois de mim, cujas correias das sandálias não sou digno de desamarrar”.
(João, 1)
Entre os versos 19 a 23 vemos João, o Baptista, sendo questionado mais de uma vez sobre quem ele era. Embora, a luz do contexto possamos entender que era uma dúvida legítima, há também uma certa incitação a tentação.
João tinha como referências contemporâneas os escribas e fariseus, que naqueles tempos eram alvo da correção de Deus, por meio das suas pregações, isso porque haviam abandonado a essência da sua existência como um grupo que surgiu durante o período interbíblico (um período de 400 anos em que Deus não falou com o povo e nem enviou profetas), com o objectivo de avivar o povo e lhes lembrar sobre a lei, os profetas e a história entre Israel e o seu Deus.
O exemplo destas figuras religiosas nos tempos de João, o Baptista, era muito virado para um sentimento de superioridade, fazendo com que os escribas e fariseus fossem vistos como os mais especiais e importantes da sociedade; eram pessoas que tinham as mais altas honras sociais, por isso não tinham ninguém que pudesse lhes repreender ou supervisionar.
Fora estas figuras, João estava também em um período onde o regime que dominava era o romano, dando a todas as pessoas com capacidade de influenciar politicamente ou se impor sobre as massas um lugar privilegiado ao longo da estrutura hierárquica do império, assim como acontecia com os publicanos.
Por fim, João também estava sujeito às mesmas paixões humanas que os fariseus, escribas e publicanos, porque ele reunia todas as características desses grupos e era aclamado e desejado pelas multidões de forma muito especial, fazendo mesmo com que os menos conhecedores das escrituras cressem que ele era o Cristo, conforme sugerem os versos 19 a 23.
Só pelo facto de terem todas essas condições criadas a volta do João, o Baptista, ele estava mais do que propenso a querer assumir quem ele não era.
Ele sabia muito bem quem era e quem ele não era. E de forma muito precisa ele fez questão de separar as duas coisas ao responder aos enviados dos escribas e fariseus, conforme dito nos versos 20 e 23.
Ao tomar esse posicionamento, João está a abrir mão de se tornar a figura mais importante da nação em vários aspectos. O ponto mais importante dessa ação de João está em ele ter feito isso estando Jesus já presente como homem e prestes a iniciar o seu ministério.
João tinha a chance única de assumir a identidade de alguém que tinha apenas a mesma idade que a dele, e nada mais que isso.
A prova do quanto João estava posicionado em um lugar proeminente está nos versos 26 e 27 onde ele volta a afirmar qual é o seu limite, onde termina a sua importância e função, mas também faz questão de anunciar que o Cristo já estava vivo e presente entre o povo. Essa informação tendo sido escondida poderia tornar João no Cristo do povo, no colega e comparça dos escribas e fariseus, assim como na figura politica do império romano com capacidade de controlar, gerir e influenciar a colônia judaica.
A lucidez de João, o Baptista, serve para nos ensinar que é até possível termos características ou capacidades semelhantes e/ou até superiores a do nosso próximo, que sabemos estar ocupando ou exercendo uma posição e/ou função que aparentemente que teríamos como ocupar de forma simples e fácil, mas no corpo de Cristo a quantidade de competências e capacidades não significa que somos os mais apropriados.
Fora essa avaliação espiritual, a vida demanda de nós a mesma sobriedade, para que não nos coloquemos em posições ou responsabilidades que ultrapassam ao que nos cabe, ainda que pareça que temos como suportar.
É bom, saudável e sábio que saibamos com precisão quem nós somos, do que somos capazes e também quem não devemos ser, ainda que sejamos capazes de fazer alguma coisa.
Em última instância, seguir esse caminho é cumprir com o exemplo deixado por Cristo "6. o qual, tendo plenamente a natureza de Deus, não reivindicou o ser igual a Deus,
7. mas, pelo contrário, esvaziou-se a si mesmo, assumindo plenamente a forma de servo e tornando-se semelhante aos seres humanos.
8. Assim, na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, entregando-se à obediência até a morte, e morte de cruz."
(Filipenses, 2)
Que Deus rica e poderosamente te abençoe.
V&P
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